Viagem

Levantamento ‘ébrio-etnográfico mapeia os 75 butiquins de Copacabana

13 • 07 • 2022 às 09:01
Atualizada em 15 • 07 • 2022 às 10:39
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Um fio postado no Twitter registrou um verdadeiro “levantamento ébrio-etonográfico” de Copacabana, documentando um elemento essencial do bairro, na Zona Sul do Rio de janeiro: os bares de rua ou botequins. Um dos endereços mais famosos do mundo pela beleza de sua praia e a dimensão de seu réveillon, a “princesinha do mar”, segundo a postagem realizada por Eduardo Freitas, apelidado Preá, possui 75 botecos ao longo de suas 65 ruas, 101 quarteirões, 7 travessas, 4 ladeiras e 3 favelas.

O espírito do fio é dos bares chamados "pé-sujo", espalhados pelo bairro

O espírito do fio postado por Preá é dos bares chamados “pé-sujo”, espalhados pelo bairro

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Esses bares populares são parte profunda da identidade carioca, mas se encontram, de modo geral, ameaçados de extinção – ainda não, porém, em Copacabana. A postagem foi feita em celebração aos 130 anos do bairro, comemorados no dia 6 de julho, e partiu, segundo o texto, de dois princípios a respeito dos botecos: “afirmar a existência da vida, é o que nega a morte, dizer que existe, é o que evita o desaparecimento”, e “apontar e listar cada um, o que os diferencia, ainda que muitos pensem que são todos iguais”.

O carioca vestindo somente uma sunga e com os pés sujos de areia também é personagem típico

O carioca vestindo somente uma sunga e com os pés sujos de areia também é personagem típico

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O tom é bem-humorado, mas o levantamento é de fato interessante, realizando um mapeamento etonográfico profundo dos botequins do bairro. Segundo o fio, 33 das 65 ruas de Copacabana possuem ao menos um boteco, das quais 13 ruas oferecem ao menos duas opções de “birosca” para quem quer cerveja gelada e petiscos. “Em menos de uma hora de caminhada, em exatos 43 minutos, você consegue ir de uma ponta a outra do bairro, sem pressa, garantindo seu balcão no inicio e no fim do trajeto. Do café e bar trindade ao bar princesa isabel* são 3,5 km de distância!”, diz o post.

Mesas na calçada fazem parte do repertório registrado no fio, que viralizou no Twitter

Mesas na calçada fazem parte do repertório registrado no fio, que viralizou no Twitter

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A parte mais repleta de biroscas em Copa é o quarteirão das ruas Ronald de Carvalho, Viveiros de Castro, Duvivier e Barata Ribeiro, com seis opções em apenas 350 metros. O levantamento também traz curiosidades sobre os nomes dos estabelecimentos, como o fato de todos os botecos da rua Domingos Ferreira começarem com a letra P (“Panamá”, “Paraíba” e “Pierrot”), de apenas 4 bares no total aludirem ao nome do bairro em seus nomes (“Sereia de Copacabana”, “Copa Bar”, “Âncora Copacabana Bar” e “Copa Azul”) e ainda ao “primeiro nome” mais comum ser “Café e Bar”, utilizado 24 vezes.

Dos 75 bares levantados, somente 4 trazem o nome do bairro em seus próprios nomes

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Os critérios do “levantamento ébrio-etonográfico” são claros e apaixonados: “O butiquim que escolhemos aqui não é o barzinho, nem bar, nem bistrô, nem restaurante. esses têm sua serventia, mas o interesse aqui é outro. é da porta que abre cedo, abrigo das camadas populares, que tem estufa, tem café, traçado e conhaque de gole apressado”, diz o texto, que traz muitas outras informações sobre o objeto estudado. Trata-se de um documento sobre um aspecto mais profundo, verdadeiro e popular de um dos bairros mais visitados do mundo.

Comida de balcão, petiscos e cerveja gelada: a base parece simples, mas o espírito dos botequins é complexo

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O fio postado por Preá – que mora no Rio há somente cinco anos e é de Volta Redonda – é uma fotografia singular de uma parte e um aspecto da cidade, mas é também um guia verdadeiramente carioca para quem quer conhecer Copacabana – pelos botequins “onde se sustenta balcão que cuida de cabeça e coração. de gente que entra muda e sai calada, de gente de nome decorado, onde se faz e se tem história emoldurada na gordura do azulejo”. O perfil de Preá no Instagram é também um belíssimo guia ébrio e fotográfico dos botequins do Rio.

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