Inspiração

Lewis Hamilton deixa Nelson Piquet, ultrapassado pelo tempo, comendo poeira na F1 e na vida

05 • 07 • 2022 às 09:53
Atualizada em 07 • 07 • 2022 às 10:52
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Racismo e homofobia marcaram as falas recentes do ex-piloto Nelson Piquet para se referir ao piloto inglês Lewis Hamilton, heptacampeão da Fórmula 1, durante entrevista no final de 2021, mas que veio a público recentemente. Diante dos ataques, Hamilton demonstrou, com seus sete títulos mundiais contra os três de Piquet que o colocam como o maior vencedor da história da Fórmula 1, ao lado de Schumacher, que não só nas pistas o brasileiro ficou pra trás: fora das corridas, como pessoa, Hamilton também deixa o brasileiro comendo poeira.

Com sete títulos mundiais, Hamilton é, ao lado de Schumacher, o maior vencedor da história da F1

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Sua reação aos próprios comentários de Piquet serve como ótimo exemplo: “É mais do que linguagem. Essas mentalidades arcaicas precisam mudar e não têm lugar no nosso esporte. Fui cercado por essas atitudes e alvo de minha vida toda. Houve muito tempo para aprender. Chegou a hora da ação”, escreveu Hamilton, em seu Twitter. Em seguida, o inglês fez questão de concluir, em português: “Vamos focar em mudar a mentalidade”.

Vidas negras importam: o piloto declara de forma pública e firme o apoio ao movimento

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O tweet no qual respondeu, inclusive em português, aos comentários de Piquet

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O mais vencedor e possivelmente o maior piloto da história da categoria, Hamilton também é o primeiro piloto negro a dirigir um carro em competição na Fórmula 1: assim, é evidente que os ataques de Piquet não foram os primeiros casos de racismo que enfrentou em sua carreira. Em 2008, na espanha, torcedores fizeram black face vestindo camisetas escritas “Família de Hamilton” durante uma corrida. “Eu me lembro da dor que senti naquele dia, mas não fale nada sobre aquilo. Eu não tinha ninguém”, comentou, sobre o caso.

Comportamento racista da torcida na Espanha contra Hamilton, em 2008

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Hamilton enfrenta com franqueza e coragem temas espinhosos, como eventuais dificuldades com saúde mental, especialmente em um contexto tão competitivo. Vegano e ativista pelos direitos animais, Hamilton já criticou publicamente as emissões de carbono da categoria na qual compete, e declara apoio firme ao movimento antirracista Black Lives Matter, deixando claro que, mais do que somente ganhar títulos, seu trabalho busca transformar a realidade a seu redor.

NO GP do Bahrein, em 2021, Hamilton se ajoelha em apoio ao Black Lives Matter

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“Ganhar um título te dá crédito mas não muda o mundo, não muda o fato de que ainda existem guerra, injustiça racial, pessoas sofrendo abusos e tanto mais, então quero usar esse meio e essa plataforma pra isso”, afirmou. Assim, enquanto Piquet foi denunciado ao Ministério Público por racismo após suas declarações dadas ao jornalista Ricardo Oliveira, o piloto da Mercedes fundou, em 2021, a Mission 44, instituição de caridade que busca abrir espaços para jovens e crianças negras dentro da Fórmula 1 e em outras carreiras.

O ex-piloto brasileiro Nelson Piquet

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No 7 de setembro de 2021, Piquet apareceu como chofer de Bolsonaro durante desfile

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Antes dos comentários sobre Hamilton, ao longo dos anos Piquet por diversas vezes ganhou as manchetes por falas preconceituosas. Apoiador ferrenho do governo Bolsonaro, em 2013, ao ser questionado sobre se havia sido melhor piloto que Ayrton Senna, respondeu que sim pois ele “estava vivo”. No passado, Piquet também afirmou à imprensa que Senna seria homossexual, e que a esposa do piloto inglês Nigel Mansel era “feia”. Tanto a Fórmula 1 quanto a FIA foram a público condenar as falas do brasileiro contra Hamilton. Um dos comentários pode ser visto no vídeo abaixo, a altura de 1 hora e 48 minutos da entrevista.

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“O que eu disse foi mal pensado, e eu não vou me defender por isso, mas eu vou deixar claro que o termo é um daqueles largamente e historicamente usados de forma coloquial no português brasileiro como sinônimo de ‘cara’ ou ‘pessoa’ e nunca com intenção de ofender”, afirmou Piquet, em comunicado. “Eu me desculpo com todos que foram afetados, incluindo Lewis, que é um grande piloto, mas a tradução em algumas mídias e que agora circula nas redes sociais não é correta. Discriminação não tem espaço na F1 ou na sociedade e estou feliz em deixar claro meus pensamentos sobre isso”, concluiu.

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© fotos 1, 2, 4, 5: Getty Images

© foto 3: Twitter/reprodução

© fotos 6, 7: Wikimedia Commons


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