Debate

Marielle, Moa do Katendê, Bruno, Dom e Marcelo Arruda: a naturalização da morte no ambiente político

11 • 07 • 2022 às 18:05 Yuri Ferreira
Yuri Ferreira   Redator É jornalista paulistano e quase-cientista social. É formado pela Escola de Jornalismo da Énois e conclui graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo. Já publicou em veículos como The Guardian, The Intercept, UOL, Vice, Carta e hoje atua como redator aqui no Hypeness desde o ano de 2019. Também atua como produtor cultural, estuda programação e tem três gatos.

Em 14 de março de 2018, o Brasil viu o assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Naquele mesmo ano, em outubro, o capoeirista Moa do Katendê foi morto a facas em uma discussão com apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, em Salvador.

Quatro anos depois e a conclusão do primeiro mandato do candidato a reeleição ganha mais uma mancha: os assassinatos cruéis e brutais contra o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips, mortos pelo narcotráfico por tentar denunciar crimes que ocorriam contra os povos indígenas do Vale do Javari.

O culto à morte seguiu sua marcha fazendo mais uma vítima. No último sábado (9), o guarda municipal Marcelo Arruda foi assassinado a tiros por fazer um aniversário temático sobre o Partido dos Trabalhadores. Arruda perdeu a vida para um seguidor de Jair Bolsonaro, Jorge José da Rocha Guaranho, que fez questão, explicam os presentes, de gritar o nome do presidente ao invadir a festa.

Crescimento da violência política no Brasil e manifesta por um dos lados do espectro; igualar vítimas é negação da realidade

Política de morte 

Todos os trágicos eventos citados fazem parte de uma lógica complexa que domina de forma crescente a política brasileira. Desde 2014 o termo “polarização” tem sido usado pela grande imprensa para tentar explicar o que está acontecendo. A realidade, porém, é que polarização é um fato político natural do Brasil desde a redemocratização (e em períodos anteriores também).

As cinco eleições entre 1994 e 2014 tiveram PT e PSDB alternando entre primeiro e segundo lugar nos pleitos presidenciais. O Brasil sempre foi polarizado entre espectros mais à esquerda da política e quadros mais à direita. Mas algo mudou recentemente e tornou o jogo mais complexo.

Uns afirmam que as jornadas de junho de 2013 deixaram a direita brasileira mais radical. Alguns analisam que o não reconhecimento dos resultados eleitorais de 2014 por parte de Aécio Neves, candidato derrotado mas que pediu auditoria das urnas, foram a chave para a desconfiança nas instituições políticas brasileiras. Outros podem atribuir a intensificação da violência política ao crescimento das redes sociais nos processos eleitorais, como as fake news que dominaram a corrida pelo Palácio do Planalto no ano de 2018.

Estes processos políticos e históricos complexos não possuem resolução simples, não são excludentes, mas esta tarefa é dos historiadores e cientistas sociais que analisarão este período histórico com mais afinco nos próximos anos. Contudo, um fenômeno de radicalização política desta dimensão não pode ser ignorado.

De acordo com dados levantados pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), foram registrados 113 casos de violência política no Brasil no primeiro trimestre de 2022. No ano de 2020, foram 27 assassinatos e 80 atentados contra candidatos e pré-candidatos a vereanças e prefeituras.

O Brasil não aguenta mais viver sob uma política de culto à morte

Abandono das instituições e política de morte

O general de guerra da Prússia Carl von Clausewitz dizia que “a guerra não é apenas uma mera ação política, mas uma forma de política em si, uma continuidade da política, que tem os mesmos objetivos, com outros meios”.

A frase sintetiza de forma real o pensamento maquiavélico para o campo da realpolitik. Um dos principais pensadores da política representativa moderna, James Madison, um dos pais fundadores dos EUA, acreditava que o modelo de democracia liberal teria como fim garantir a redução da violência política e que as instituições poderiam conter as paixões” inevitáveis da política.

Com a desvalorização e o desrespeito frequente às instituições, o Brasil retrocede. Deputados negros, mulheres e LGBTQIA+ relatam com frequência insustentável o aumento de casos de violência e ameaças de morte. Trabalhadores da Funai – que tem como objetivo cumprir um papel constitucional – seguem sendo vítimas de violência de milícias organizadas institucionalmente com fins diversos de exploração econômica (garimpo, narcotráfico ou agronegócio).

Ativistas políticos continuam achacados politicamente. Na última quinta-feira (7), um atentado a bomba ocorreu durante um comício político do candidato Lula (PT), no Rio de Janeiro. A ideia de uma “terceira via” ou de uma alternativa “de centro” para a política brasileira, por exemplo, não traria novidades para a sociedade. Porque muito do que é defendido por cada um dos lados é inegociável.

Não existe uma conciliação entre indígenas e garimpeiros. Não existe um “meio do caminho” entre racistas e antirracistas. Não é possível conciliar os interesses da população LGBTQIA+ com deputados LGBTfóbicos. Não há conciliação entre vida e morte.

Jair Bolsonaro fazendo sinal de arma, marca de sua gestão

Defensores de Jair Bolsonaro e do culto à morte

Não é a sociedade brasileira que está “polarizada”. É que uma parte da política brasileira abandonou os princípios do chamado estado democrático de direito e da própria democracia representativa. E uma das alternativas encontradas foi a morte.

Repetimos aqui: em 14 de março de 2018, o Brasil viu o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Naquele mesmo ano, em outubro, o capoeirista Moa do Katendê foi assassinado a facas em uma discussão com apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

Quatro anos depois, Bruno Pereira e Dom Phillips foram assassinados pelo narcotráfico por tentar denunciar crimes que ocorriam contra os povos indígenas do Vale do Javari. No último sábado, o guarda municipal Marcelo Arruda foi assassinado a tiros por fazer um aniversário temático sobre o Partido dos Trabalhadores.

Mais de 600 mil brasileiros morreram durante a pandemia de covid-19. O 3º maior número de mortos do planeta. A sua maioria pobre, negra e periférica. Não há e nunca houve uma “escolha muito difícil”. Existe um lado que morre e um lado que mata.

As ideias defendidas por Marielle, por Moa, por Bruno, por Dom e por Marcelo Arruda podiam até ser diferentes, mas tinham inimigos relativamente comuns e próximos. Todos eles foram mortos por ideias inconciliáveis. A verdade é que só a vitória transforma a vida real das pessoas. A grande questão é: será que eles são capazes de aceitar a derrota?

Publicidade

Fotos: Foto 1: Reprodução/Twitter/Dom Phillips Foto 2 e 3: Reprodução/TV Globo Foto 4: Mídia Ninja/foto 5: Getty Images/foto 6: Getty Images


Canais Especiais Hypeness