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Moreno: breve história sobre o ‘feiticeiro’ do grupo de Lampião e Maria Bonita

25 • 07 • 2022 às 21:18
Atualizada em 28 • 07 • 2022 às 09:45
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Quando, em 27 de junho de 1938, o bando de Lampião foi finalmente derrotado pela polícia, alguns cangaceiros conseguiram escapar: entre eles, Antônio Ignácio da Silva, mais conhecido como Moreno. Nascido em Tacaratu, no sertão de Pernambuco, em 1909, e membro da nação indígena de Pankararu, Moreno sonhava em ser soldado, mas ingressou no cangaço após ser acusado e perseguido injustamente pela polícia no interior do Ceará.

Moreno ao lado de sua esposa Durvinha, durante os tempos de cangaço

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Temido como um cangaceiro sanguinário, Moreno era conhecido no grupo por um aspecto em especial de sua personalidade, que definiria sua relação com Lampião e até mesmo seu futuro: apelidado também de “Feiticeiro”, Moreno era um místico dentro do bando. Consta que carregava um caderno com feitiços e orações especiais anotadas para proteger seus companheiros, e que fabricava patuás, medalhas, sinetas e amuletos que ele garantia serem capazes de “fechar o corpo” dos cangaceiros.

O local da captura e morte de Lampião e seu bando, em Poço Redondo, no Sergipe

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Moreno viveu até 2010, e tinha 100 anos quando faleceu em Belo Horizonte, onde vivia ao lado de sua esposa, Durvinha, que também foi do bando. O passado no cangaço de ambos foi mantido em segredo por quase sete décadas – consta que até o fim da vida Moreno tinha medo de ser decapitado como foram os cangaceiros capturados e mortos ao lado de Lampião, e de nunca ter sua própria cova. No fim da vida, os dois enfim revelaram a verdade, que se tornou tema de um documentário sobre o casal.

Moreno e Durvinha na velhice, à época da divulgação do documentário

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Em entrevistas, Moreno contou que até o próprio Virgulino temia seus talentos para a feitiçaria, por medo de ficar em dívida com o diabo: Lampião teria recusado pendurar um sinete especial preparado por Moreno em seu chapéu, que lhe daria o poder de prever o futuro. Para Moreno, foi exatamente esse amuleto que lhe permitiu escapar policiais do Tenente João Bezerra e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva, que atacaram o bando na fazenda Angicos, no Sergipe, capturaram e assassinaram 11 cangaceiros, incluindo Lampião e Maria Bonita.

O Rei do Cangaço: Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião

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Após o cangaço, Moreno e Durvinha se estabeleceram em Minas com outros nomes, e tiveram mais cinco filhos além do primeiro, que nasceu ainda quando estavam com um bando, mas que foi deixado com um padre para que o choro do bebê não os denunciasse durante a fuga. Os tempos ao lado de Lampião foram mantido em segredo até o momento em que o irmão mais velho finalmente encontrou os pais, em 2005. Pouco tempo depois, Durvinha veio a falecer e, em tristeza após perder a companheira de vida e cangaço, Moreno também morreu, em setembro de 2010 – e foi devidamente enterrado em uma cova com seu nome.

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© fotos 1, 3: Imovision/divulgação

© fotos 2, 4: Wikimedia Commons


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