Diversidade

O fator racial na foto com pretos buscando comida no caminhão de lixo ignorado pela Folha de São Paulo

12 • 07 • 2022 às 10:24
Atualizada em 12 • 07 • 2022 às 10:36
Kauê Vieira
Kauê Vieira   Sub-editor Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

Uma fotografia com pessoas procurando alimento na caçamba de um caminhão de lixo no Centro do Rio de Janeiro causou um sentimento de degradação em quem ainda tem um coração no lado esquerdo do peito.

A imagem divulgada pelo jornal Folha de São Paulo foi captada pelo fotojornalista Onofre Veras, que traduziu com a crueldade de tempos nefastos a realidade vivida por grande parte da população. 

O Brasil está de volta ao mapa da fome da ONU pela primeira vez desde 2014. Nenhuma novidade para os que passam por isso, os de olhar atento e os (muitos) que fazem o que podem para ajudar o próximo

Uma coisa, porém chamou a atenção desse jornalista negro que vos escreve. O jornal Folha de São Paulo, em nenhum momento, citou o gritante fato de que TODAS AS PESSOAS CHAFURDANDO NO LIXO ERAM NEGRAS

O mais perto que a Folha chegou da realidade foi dizer que moradores mais pobres e de periferia sentem mais o peso da inflação de dois dígitos que assola a vida de brasileiros e brasileiras há mais de um ano. 

Se a vida piorou para grande parte da população, imagine como está a realidade de quem sempre viveu no limbo de uma sociedade racista? Ser negro no Brasil nunca foi fácil, as favelas não me deixam mentir, mas a eleição de Jair Bolsonaro e seu espectro político tornou a coisa muito mais complicada. 

Economia não são apenas números. Flávia Oliveira, hoje uma das mais brilhantes jornalistas do Brasil, sempre fez questão de sublinhar a urgência de se misturar a editoria econômica com a realidade social – sobretudo a de pessoas negras. 

Insegurança alimentar 

A Folha preferiu ignorar o fato de pretos e pretas serem os que mais sofrem com a insegurança alimentar. Insegurança alimentar, para quem não sabe, é um termo usado para apontar um estado de insuficiência de alimentos de qualidade e na quantidade adequada para a nutrição de um ser humano. 

A foto publicada na Folha com um grupo de duas mulheres e três homens negros buscando restos de comida em um caminhão de lixo (você leu o que eu acabei de escrever?) aponta que a alimentação da parcela majoritária da população brasileira não vai nada bem. 

Os números não deixam mentir. Segundo dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no nosso país, a fome fez parte da realidade de 10,7% das famílias negras contra 7,5% entre os brancos. 

O trabalho foi feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN) em dezembro de 2020. Ou seja, o cenário é, certamente, bem pior do que há mais de dois anos. 

A fome é realidade na vida de pessoas negras

O Auxílio Emergencial oferecido pelo governo Bolsonaro não consegue nem tapar o burcado do dente em um país onde o leite custa cerca de R$ 9. Para se ter ideia do buraco ignorado pela Folha, 67,5% das famílias negras não conseguem arcar com os custos da alimentação

Desemprego 

Vamos falar brevemente de desemprego para concluir. O Brasil registra taxa de desempregados na casa dos 9,8% – é a primeira vez que o índice está abaixo dos 10% desde 2016. 

Os negros, você deve imaginar, são os que mais penam com a falta de postos de trabalho em um cenário de precarização absoluta da mão de obra – basta andar pelas ruas das grandes cidades brasileiras para tirar a prova. 

Pois bem, dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) apontam que nada menos do que 74,4% das pessoas que perderam seus empregos no período da pandemia são pretos e pretas

O ano de 2020 foi uma catástrofe estimulada pela falta de liderança de um governo que não levou a pandemia a sério. O “e daí?” dito pelo presidente da República ao comentar os milhares de mortos pela covid e a postura antivacina da gestão não deixam dúvidas: a ausência de ação custou vidas

Negros pagam a conta do desemprego e da inflação

A perda de vida se deu pelos quase 700 mil mortos e, também, pelos tantos outros que tiveram o futuro colocado em dúvida pela falta de renda. Pela falta do que comer. 

Quase 9 milhões de pessoas foram demitidas entre o primeiro e segundo trimestre de 2020, aponta o Dieese. Desse total, 6,4 milhões eram pretos e pretas, euquanto 2,5 milhões não negros. 

Não trazer a questão racial para o debate provocado pela brilhante foto de Onofre Veras soa desonesto em um país onde pretos e pretas sentem na pele os efeitos de uma crise econômica profunda. 

Evoco o brilhante Millôr Fernandes: “Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.”

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