Inspiração

Quem foi Gaspar Yanga, líder escravizado considerado o primeiro libertador das Américas

01 • 07 • 2022 às 14:40
Atualizada em 05 • 07 • 2022 às 10:17
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Gaspar Yanga chegou ao México por volta de 1560 como uma das milhões de pessoas negras sequestradas do continente africano para serem escravizadas nas Américas, mas se tornaria o primeiro grande libertador do continente. Antes de Guevara, Tupac Amaru, Simon Bolivar, Dandara ou Zumbi dos Palmares, entre outros, Yanga liderou uma revolta de escravizados que resistiria aos ataques espanhóis e se estabeleceria como uma cidade, e seria reconhecido como herói nacional no país.

Yanga em detalhe de um mural no Palacio Municipal de Xalapa, em Veracruz

Yanga em detalhe de um mural no Palacio Municipal de Xalapa, em Veracruz

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Como é comum entre as pessoas escravizadas, as informações sobre a vida de Gaspar Yanga anterior ao sequestro quase não existem, mas sabe-se que ele veio do Gabão e era membro da nobreza do povo Yang-Bara. Vendido no mercado de escravizados do estado de Veracruz, quando o México ainda era chamado de “Nova Espanha”, Yanga liderou uma revolta de trabalhadores escravizados em 1570, na plantação de açúcar de “Nuestra Señora de la Concepción”, que terminaria com 23 espanhóis mortos, e a formação do primeiro “palenque” mexicano, comunidade equivalente aos quilombos brasileiros.

Estátua de Gaspar Yanga na cidade que o homenageia em seu nome

Estátua de Gaspar Yanga na cidade que o homenageia em seu nome

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Formado por pessoas escravizadas fugitivas em uma região montanhosa e isolada, o palenque de Yanga sobreviveu por mais de 30 anos, através de alianças com populações nativas da região, e ataques e saques contra comitivas pelas estradas da região. Em 1609, porém, o governo colonial espanhol decidiu estabelecer campanha intensiva para derrubar a comunidade e dominar o território: liderado pelo soldado Pedro González de Herrera, a tropa reuniu 550 espanhóis para atacar os cerca de 500 membros do palenque, que se defendiam usando armas de fogo roubadas, mas também pedras, arcos e flechas. Yanga já estava velho, e a indicou o angolano Francisco de La Matosa para liderar a resistência no campo de batalha.

Detalhe da placa abaixo da estátua: "Yanga, o primeiro povo livre da América"

Detalhe da placa abaixo da estátua: “Yanga, o primeiro povo livre da América”

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No início dos combates, os revoltosos capturaram um líder espanhol, e Yanga decidiu utilizar o prisioneiro como moeda de troca para buscar estabelecer um acordo com as tropas espanholas. Em troca do reconhecimento da comunidade e da liberdade de seus membros, os revoltosos cessariam os ataques, passariam a pagar impostos ao Império Espanhol, e não aceitariam novos membros no palenque. Inicialmente, os colonizadores recusaram a proposta, e a guerra perdurou até 1618, quando enfim o tratado de paz proposto por Yanga foi estabelecido.

Cartaz em celebração a Gaspar Yanga lançado no México

Cartaz em celebração a Gaspar Yanga lançado no México

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Assim, em 1630, cerca de dois séculos antes da libertação mexicana, surgiu a cidade de San Lorenzo de Los Negros a partir do palenque, que, em 1932, passou a se chamar Yanga, em homenagem a seu fundador. Não se sabe quando ou como o líder faleceu, mas desde 1871 Gaspar Yanga é reconhecido como “Herói Nacional do México” e o “primeiro libertador das Américas” – e um dos mais importantes nomes que lutou contra os horrores da escravidão no continente com a própria vida.

A cidade passou a se chamar Yanga em 1932

A cidade de San Lorenzo de Los Negros passou a se chamar Yanga em 1932

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© fotos 1, 2, 3: Wikimedia Commons

© fotos 4, 5: Twitter/@periodistan_/reprodução


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