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Uber leaks: documentos revelam lobby global e táticas inescrupulosas por parte da empresa

19 • 07 • 2022 às 10:20
Atualizada em 21 • 07 • 2022 às 09:30
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Para se tornar líder e referência no mercado de apps de transporte, a Uber utilizou táticas inescrupulosas, atropelou leis trabalhistas, se valeu de métodos ilegais, enganou a polícia e a justiça de diversos países, e se escondeu atrás de um lobby global. É isso que revela o Uber Files, vazamento de mais de 124.000 documentos e apelidado de “Uber Leaks”, que vem sendo noticiado em todo o mundo, mas que tem recebido pouca atenção da imprensa brasileira.

A empresa teria desrespeitado leis trabalhistas e explorado os profissionais

A empresa teria desrespeitado leis trabalhistas e explorado os profissionais a serviço do app

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Um dos jornais que divulgou o vazamento foi o britânico The Guardian, revelando que a empresa violou leis, escondeu informações de governos e pressionou autoridades pelo mundo. Segundo o jornal, o vazamento compreende um período de cinco anos de atividades, entre 2013 e 2017, quando a Uber era gerida por Travis Kalanick, cofundador da empresa. Os documentos foram vazados para o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), organização que reúne mais de 140 jornais, estações de rádio, emissoras de TV e meios de comunicação online.

Travis Kalanick, ex-CEO da Uber, é o principal nome acusado nos vazamentos

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Os milhares de memorandos, apresentações, e-mails, mensagens de WhatsApp e iMessage que formam o acervo revelam que ao menos seis líderes mundiais foram procurados pela Uber em busca de apoio, para acelerar o lobby em favor do app em seus países, incluindo o atual presidente dos EUA, Joe Biden, quando ele ainda era vice-presidente, o atual presidente da França, Emmanuel Macron, quando ele trabalhava como Ministro da Economia, e o então primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

Emmanuel Macron, atual presidente da França, teria atuado como lobista para a Uber

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Segundo reportagem da BBC, uma troca de mensagens entre Macron e Kalanick revela que o então ministro se comprometeu a trabalhar por uma mudança legislativa na França que favorecesse a empresa. “Vou reunir todo mundo na próxima semana e preparar uma reforma para corrigir a lei”, afirmou Macron, em mensagem de junho de 2015. Alguns meses depois, o político assinou uma nova lei que regulamentava o cadastro de motoristas para a empresa americana no país.

Macron e Joe Biden: o atual presidente dos EUA também teria agido em favor da empresa

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No início das atividades, a empresa ofereceu grande estímulo financeiro aos motoristas, organizando-os para protestarem contra, por exemplo, os taxistas que resistiam à novidade, colocando trabalhadores uns contra os outros. Ao longo dos anos, porém, a Uber reduziu as margens de lucro de seus profissionais, tornando a oportunidade em subempregos. Segundo matéria do The Washington Post, a empresa possuía até mesmo um botão de desligamento total, capaz de desativar os sistemas e impedir investigações, a fim de apagar o rastro de suas práticas e seus relacionamentos escusos.

Protesto de taxistas em Barcelona, na Espanha, após as revelações do Uber Leaks

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Manifestação recente em Nova York de motoristas de aplicativo por melhores pagamentos

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Em resposta ao vazamento, a companhia admitiu os erros, que teriam levado a uma série de ações na justiça, demissões de executivos e investigações por partes de governos, e afirmou que agora funciona de forma diferente. “Quando dizemos que a Uber é uma empresa diferente hoje, queremos dizer literalmente: 90% dos atuais funcionários da Uber entraram depois que Dara se tornou CEO”, afirmou o comunicado, se referindo a Dara Khosrowshahi, que se tornou CEO da empresa em 2017, após a saída de Kalanick. Segundo o comunicado, a ação representa um dos “mais infames acertos de contas da história dos EUA corporativo”.

Dara Khosrowshahi, atual CEO da empresa, assumiu os erros do passado

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