Diversidade

Willy De Bruijn: o ciclista trans que fez história nos anos 1930

19 • 07 • 2022 às 10:26
Atualizada em 21 • 07 • 2022 às 09:29
Karol Gomes
Karol Gomes   Redatora Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

Nascido em 1914 em Erembodegem, Flandres Oriental, na Bélgica, Willem Maurits De Bruyn foi criado como uma menina por seus pais, apesar de ter nascido com órgãos sexuais masculinos e femininos. Aos 14 anos, chama atenção nas filas da escola por ser mais alto e mais forte do que garotas de sua idade e percebeu que não era como elas. 

Por um tempo, o fato de se sentir diferente perturbou Willem profundamente e ele chegou até mesmo a considerar o suicídio. A partir de 1928, após terminar os estudos, passou de trabalho em trabalho: primeiro, uma empresa de cigarros e depois, no café dos pais. Mas a melhor parte de seus dias eram as noites, quando estava em casa e podia ler contos de literatura médica. Foi assim que, eventualmente, ele se entendeu como interssexual. Na época, o termo usado era “hermafrodita”

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Um pouco tempo depois, Willem finalmente se sentiu pertencente em alguma comunidade: o ciclismo. Começou a andar de bicicleta em 1932 e no ano seguinte ganhou o Campeonato Europeu feminino em Aalst, Bélgica. Em 1934, venceu o Campeonato Belga em Leuven e o Campeonato Mundial em Schaerbeek, diante de cerca de 100.000 espectadores. 

Willy não fez carreira no ciclismo por deixar mulheres ganharem

Ele era então a maior estrela belga no ciclismo feminino, mas se sentia cada vez mais desconfortável competindo e vencendo contra mulheres, quando “se sentia como um homem, nunca como uma mulher”. Ele continuou correndo para ganhar dinheiro, mas se auto sabotava nas corridas, terminando em segundo ou terceiro de propósito, para deixar os primeiros lugares para as mulheres. 

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No meio dos esportes, descobriu a história de Zdeněk Koubek, um atleta tcheco que depois de ser uma campeão em categorias femininas de ciclismo, se declarou um homem. Seguindo o exemplo, Willem declarou a identidade masculina em 1936. Por causa disso, ele teve problemas constantes e não conseguia se manter em empregos. 

Mas entre os autos e baixos, juntou dinheiro o suficiente para realizar o sonho da operação de designação de sexo, em Paris, no ano de 1937. Mais tarde, publicou sua história em quatro artigos, intitulados “Como me tornei um homem”, no jornal De Dang, em abril de 1937. Depois disso, abriu um bar em Bruxelas, onde revelava o seu antigo nome para aqueles que visitavam, se apresentando como “Willy, ex Elvira de Bruyn”. 

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Em 2019, uma rua em Bruxelas foi nomeada em homenagem a Willy

Em 1938 Willem casou-se com Clementine Juchters, que também trabalhou no ciclismo, mas ganhava a vida como cabeleireira. Por causa da eclosão da Segunda Guerra Mundial, Willy e Clementine De Bruyn se mudaram para Zellik em setembro de 1940. De Bruyn e sua esposa tiveram um bordel e vários cafés. Eles moravam em Antuérpia e passaram um tempo com uma barraca nos mercados da Bélgica. E ainda há registros de que eles teriam morado nos Estados Unidos, vendendo “smoutebollen”, as Oliebols, tradicionais doces belgas, em bairros de descendentes em Nova York. 

Depois de tantas jornadas na vida, Willy De Bruyn morreu em 13 de agosto de 1989, em Antwerp, um ano após o falecimento da esposa. Hoje existe uma rua com seu nome em Bruxelas. 

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