Ciência

Como ‘fumar de castigo’ se tornou tática de médica para combater o tabagismo

04 • 08 • 2022 às 09:59 Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

A solução para conseguir parar de fumar pode ser “fumar de castigo”, colocando-se a si mesmo em frente a uma parede na hora de acender um cigarro.

Essa é uma das técnicas mais eficazes que a cardiologista Jaqueline Scholz revelou utilizar, em reportagem da BBC, com os pacientes que vão ao seu consultório querendo largar o vício: sempre que for fumar, ficar de pé, sozinho e em um ponto isolado, diante de uma parede lisa até terminar o cigarro.

A médica que desenvolveu a técnica é uma das grandes especialistas em tabagismo do país

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‘Fumar e castigo’

Professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Instituto do Coração (InCor), Scholz criou a técnica em 2015, durante uma conversa com um paciente que lhe cobrava o fracasso da promessa feita pela médica, de que com o tratamento ele perderia o prazer de fumar.

“Foi aí que tive a ideia: eu levantei da minha cadeira, olhei para o lado e respondi: ‘Quero ver você ter prazer ao fumar de pé, olhando só para uma parede'”, afirma, na matéria.

A técnica de "Fumar de castigo" busca desassociar o hábito às memórias de prazer

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Segundo um artigo sobre o tema, assinado pela cardiologista em parceria com colegas da USP e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e uma representante do Departamento de Cardiologia Preventiva do Hospital Universitário de Oslo, na Noruega, a técnica de “Fumar de castigo” ampliou a eficácia do tratamento em 31%.

Enquanto o tratamento padrão deu certo com 34% dos participantes que abandonaram o fumo, o grupo que utilizou o “castigo” alcançou 65% de sucesso.

A técnica ampliou consideravelmente a porcentagem de sucesso entre os pacientes

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A médica explica a eficácia da técnica a partir de um componente determinante para o vício do tabagismo: a associação entre o hábito e as memórias hedônicas, ligadas ao prazer.

De acordo com Scholz, em alguns casos, mesmo entre os pacientes que utilizam medicamentos para combater os efeitos da nicotina e de sua abstinência, a lembrança de momentos agradáveis associados, como intervalos de trabalho, lazer, café. Refeições e conversas, tornam especialmente difícil deixar de fumar.

A técnica foi aplicada aliada ao uso de medicamentos corretos para combater o hábito

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É nesse aspecto que a técnica funciona: ao fumar “de castigo”, o paciente começa a desassociar o cigarro dos estímulos de momentos agradáveis. Segundo a médica, a eficácia da técnica foi medida juntamente ao uso de medicamentos devidos, e também se baseia no fato de não partir da proibição absoluta.

“A gente dá autonomia para o paciente e não determina que ele está proibido de fumar”, diz Scholz. “Quando eu falo de fumar de castigo, muitos pacientes param e pensam: ‘Puxa, não é que isso faz sentido?”, reflete. A reportagem de André Biernath para a BBC News Brasil pode ser lida aqui.

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© foto 1: Public Domain Pictures

© foto 2: Getty Images

© foto 3: Pixnio

© foto 4: Raul Lieberwirth/Flickr/CC


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