Diversidade

Varíola dos macacos e o perigoso flerte com o estigma contra homens gays

05 • 08 • 2022 às 10:18
Atualizada em 05 • 08 • 2022 às 10:18
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

A varíola dos macacos que já afeta 80 países com mais de 26 mil casos confirmados traz uma outra ameaça embutida em seu surto: a homofobia.

Além das preocupações com a própria doença, o risco de estigmatização contra homens gays ou que fazem sexo com outros homens vem se revelando preocupante, e agravado pela postura da própria Organização Mundial de Saúde (OMS) em notícias recentes.

A doença causa feridas, manchas e erupções na pele

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Preconceito e estigma 

No início, com a confirmação do surto da varíola dos macacos, outro grupo também foi afetado pelo preconceito: apesar da situação então se encontrar em especial alarme na Europa e nos EUA, as reportagens traziam quase sempre imagens de doentes negros ou negras.

A maioria de fotos de pessoas negras foi alvo de intensas críticas nas redes sociais, como agora também vem sendo o perigoso e preconceituoso foco nos homens que fazem sexo com outros homens como suposto grupo de risco principal.

O vírus da varíola dos macacos visto em um microscópio

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Pois, apesar da maioria dos casos ainda se concentrar nesse grupo, o fato é que a doença afeta qualquer pessoa, e já são diversas as infecções entre mulheres, crianças ou homens que não fazem sexo com outros homens.

Assim como ocorreu com a epidemia de HIV/Aids, o preconceito e a desinformação ajudam a doença a se espalhar mais. É sabido que o que expõe alguém às doenças não é sua orientação sexual, mas sim eventuais comportamentos de risco – e isso também vale para a varíola dos macacos.

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OMS contribuiu para preconceito 

O próprio diretor da OMS, Tedros Adhanom, contribuiu para a desinformação ao pedir que “homens que fazem sexo com homens” diminuíssem o “contato sexual”, mesmo reiterando que a doença pode infectar qualquer pessoa exposta. Comportamento de risco e orientação sexual são coisas completamente diferentes, e saber diferenciá-las firmemente é fundamental não só para combater o preconceito, mas também para evitar a propagação.

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No Brasil, são 1.369 casos confirmados até o fechamento deste texto. O contato com a pele de uma pessoa doente é uma das formas mais ágeis de contágio, por isso é fundamental monitorar sintomas como febre, dor de cabeça, inchaço dos gânglios linfáticos, dor nas costas, dores musculares e cansaço, além das feridas e erupções cutâneas. Evitar beijos, abraços e sexo com pessoas que podem estar contaminadas, seja a orientação sexual qual for, é essencial.

O diretor da OMS, Tedros Adhanom

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Usar máscaras e evitar aglomerações também são medidas importantes como forma de conter a contágio da doença. Antes de tudo, porém, é fundamental não estigmatizar a doença, já que qualquer pessoa pode se contaminar.

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