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Documentário retrata construção de discurso politizado dos Racionais e força da representatividade

22 • 11 • 2022 às 10:54
Atualizada em 22 • 11 • 2022 às 11:12
Adriana Del Ré
Adriana Del Ré   Redatora Adriana Del Ré é jornalista especializada na área de cultura e entretenimento. Formada pela PUC-SP, foi repórter, subeditora e editora no jornal O Estado de S. Paulo. Colaborou também para Rolling Stone, UOL, portal da CNN e Valor Econômico, entre outros veículos.

Uma das produções mais assistidas na Netflix no Brasil, o recém-lançado documentário “Racionais – Das Ruas de São Paulo Pro Mundo” é uma potência audiovisual. E a diretora Juliana Vicente conta com alguns trunfos para isso. Primeiro, com a própria história do grupo Racionais MC’s que, por si só, já oferece material riquíssimo.

Depois, com o fato de poder retratar essa trajetória de sucesso a partir do depoimento dos todos os integrantes do grupo, Mano Brown, KL Jay, Ice Blue e Edi Rock, os mesmos há mais de 30 anos – o que não é pouca coisa quando se fala em grupos longevos. E também conseguir costurar essa história – contada cronologicamente, passo a passo, disco a disco – com um precioso conteúdo audiovisual, que inclui cenas dos primórdios dos Racionais.

À frente dos Racionais, Ice Blue, Edi Rock, KL Jay e Mano Brown estão juntos há mais de 30 anos

Mais do que apenas refazer essa história, “Das Ruas de São Paulo Pro Mundo” se aprofunda numa jornada de construção de um grupo que se tornou referência máxima na cena do rap nacional e de seu discurso politizado, de empoderamento negro, periférico, de combate ao racismo. Mostra a força da representatividade que os Racionais exercem sobre os jovens da periferia, que se enxergam neles. Afinal, os rappers, criados nas zonas sul e norte de São Paulo, têm a mesma origem humilde e traduzem sua realidade em letras contundentes.

Há um momento interessante do documentário que revela justamente a aproximação do grupo com o movimento negro intelectualizado, e a importante ponte que eles passaram a fazer entre esse movimento de negros que estudaram, que “sabiam das coisas, mas não tinham acesso à juventude que não sabia”. “Os Racionais tinham acesso a esses jovens, aí a coisa começou a acontecer”, conta Mano Brown, no filme.

Projeção nacional

O espectador percebe como o grupo foi recalculando sua rota ao longo dos anos. Nada foi planejado ou premeditado. Inclusive, o sucesso fora da periferia não estava nos planos deles. Quando a música “Homem na Estrada”, primeiro grande sucesso do grupo, do LP “Raio X Brasil” (1993; gravadora Zimbabwe), furou essa bolha, começou a tocar em todas as rádios do país. O grupo ganhava ali projeção nacional.

Cena do documentário “Das Ruas de São Paulo Pro Mundo”

Mas Brown não gostou da ideia de perder o controle das coisas. No filme, Serafim, da Zimbabwe, lembra como ele reagiu na época: “Que porra é essa que tá tocando em toda rádio minha música, tá tocando em umas rádios de boy, até em rádio de padre tá tocando. Não fiz minha música pra tocar em todo lugar. Quero que você ligue pra tirar minha música do ar”. Obviamente, Serafim não podia fazer mais nada.

“Das Ruas de São Paulo Pro Mundo” refaz a caminhada de sucesso dos donos de canções emblemáticas como “Pânico na Zona Sul”, “Diário de um Detento” e “Fim de Semana no Parque”, e também seus percalços, como a relação sempre tensa com a polícia, alvo de críticas nas letras e no discurso combativo do grupo. O tumultuo na Virada Cultural de 2007 é dos casos relembrados no filme. Durante o show dos Racionais no evento, a Praça da Sé, onde foi instalado o palco em que eles se apresentaram, virou campo de guerra entre pessoas que estavam na plateia e polícia.

Panela de pressão

Na época, falou-se que o detonador do incidente foi um grupo de fãs que subiu numa banca de jornal para conseguir assistir ao show. Policiais, então, teriam pedido para que eles descessem e a confusão teria começado. Os Racionais contam outra versão no filme. A questão é que, naquele dia, a Praça da Sé havia se tornado uma panela de pressão por uma série de fatores. E a relação sempre tensa entre grupo de fãs dos Racionais com a polícia foi fator preponderante para aquele desfecho. Ainda no documentário, eles relatam que o episódio desencadeou retaliações: foram proibidos de fazer shows ao ar livre e começaram a ser perseguidos, como se fossem um “perigo para a sociedade, para a segurança pública”, afirma Edi Rock. O grupo só voltou se apresentar na Virada em 2014.

Filme refaz trajetória de sucesso do grupo

Num ambiente ainda tão dominado por homens, é digno de nota falar do olhar que o documentário, dirigido por uma mulher, lança sobre as mulheres que fazem parte do planeta Racionais. São figuras retratadas como fundamentais nessa história, como as mães de Brown e Ice Blue; Eliane Dias, esposa de Brown e empresária dos Racionais; e a produtora do grupo, Meire de Jesus.

Para além de se comunicar com os fãs do grupo, “Racionais – Das Ruas de São Paulo Pro Mundo” faz o retrato de um dos capítulos importantes na história da música brasileira. Com várias camadas, é uma produção que merece furar a bolha – assim como os próprios Racionais fizeram.

Veja o trailer:

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