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O Mundo como
Sala de Aula

A educação das crianças e jovens hoje é como um trem: presa aos trilhos, deve parar a cada estação no horário certo, caso contrário chegará ao ponto final com atraso. Como concluiu o educador John Holt (1), após fazer essa analogia, crianças não são trens. Elas não aprendem no mesmo tempo e sequer precisam seguir o mesmo trajeto para chegar ao destino.

O sistema educacional atual, entretanto, segue com os vagões e paradas cronometradas. A cada série, o aluno enfrenta disciplinas organizadas nas grades, aulas de 50 minutos, sinal que toca para o intervalo, provas e nota mínima. Em sequência industrial – já reparou como até mesmo os nomes usados para definir o ambiente escolar fazem alusão à rotina de uma fábrica? –, o processo de ensino formal pouco mudou nos últimos cem anos.

Desde a década de 70, entretanto, há uma corrente ideológica que acredita não haver mudança que resolva o Ensino. E a partir disso propõe uma não tão nova forma de enxergar o aprendizado, extinguindo por completo sua institucionalização. Trata-se da Desescolarização, ou Unschooling, em inglês. Trata-se da Desescolarização, ou Unschooling, em inglês.

O que é a Desescolarização?

Mais do que um conjunto de preceitos pedagógicos que regem um modelo de ensino, a Desescolarização é o total afastamento dos livros didáticos, salas de aula e testes.

É uma forma de relação com o mundo que rechaça o conceito de que não se pode aprender fora da escola e longe de especialistas. Para Jan Hunt, psicóloga norte-americana e autora de diversos livros sobre Educação, a Desescolarização não tem receita e não pode ser explicada em um passo-a-passo.

"[A Desescolarização] é baseada na confiança de que os pais e as crianças vão encontrar os caminhos que melhor funcionam para eles – sem depender de instituições educacionais, editoras ou experts que lhes digam o que fazer", afirma.

Quando um bebê está aprendendo a dar os primeiros passos, os pais logo correm para apoiá-lo nas tentativas e acalmá-lo nos tombos. "Nenhum pai atencioso diria 'Todo bebê da sua idade deveria saber andar. É bom que você consiga andar até sexta-feira!'", ironiza a psicóloga em seu The Unschooling Unmanual ("O Não-Manual da Desescolarização", em tradução livre).

Por que, então, a sociedade encara os demais aprendizados de forma seriada e rigidamente controlada?

Se a Desescolarização soa um tanto radical e perigosa, vale lembrar que este é apenas um nome novo para uma prática milenar. Afinal, a maior parte da humanidade seguiu dessa forma: aprendendo com a vida.

Infográfico

Diferenças entre Educação Formal, Homeschooling e

Desescolarização-2
paisagem
Entenda as diferenças entre Educação Formal, Homeschooling e a Desescolarização
balao garota coracao coracao coracao barco-rosa barco-amarelo
Desescolarização

na Desescolarizacao

Educação Formal

no Homeschooling

Homeschooling

na Educação Formal

coracao coracao coracao No Brasil
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No Brasil

No Brasil

School's out for summer;
School's out forever

Fora da escola no verão! Fora da escola para sempre!" (Alice Cooper – School's Out)

Depois de anos desenvolvendo projetos na área da Educação, com dinâmicas e ações que questionam o presente modelo de Ensino, o terapeuta Álvaro Rodrigo Silva Dantas foi colocado contra a parede por seu filho Cauê, na época com 11 anos. Descontente com a escola, como a maioria dos jovens, ele questionou: "Você criou tudo isso e eu tenho que ir à escola?" Desde então, o garoto não frequenta mais o colégio. Ele trocou a carteira escolar, provas e matérias pela liberdade de se aprofundar em seus próprios interesses, como um curso de artes e criação de games digitais, além da aprendizagem do inglês.

Em vez de tomar os trilhos de conteúdos da educação formal, Cauê segue seu próprio ritmo e encaixa o aprendizado dentro de áreas pelas quais se interessa. "Um dia fizemos uma protótipo de uma katana, um projeto do Cauê. Tivemos que acessar regras e fórmulas de geometria e matemática para poder fazer o molde e depois levá-lo até o marceneiro para cortar. E ainda tivemos uma 'aula' com ele, na hora da escolha da madeira mais adequada", conta Álvaro.

Segundo ele, a grande diferença da Desescolarização em relação ao ensino padrão é que o conteúdo está sempre relacionado a uma demanda real e nunca é imposto, de forma que não perde o sentido. Álvaro também é pai de Mel, 11 anos, e de um bebê de 6 meses, que seguem os passos do irmão na educação domiciliar.

Com livros espalhados pela casa, materiais de desenho à vontade e pais disponíveis e dispostos a ouvir e a compartilhar, Cauê e Mel são curiosos em sua essência e encontram uma oportunidade para aprender até mesmo no momento do preparo das refeições. "Toda atividade cotidiana, da rotina da família, pode ser trabalhada como aprendizagem. Cozinhar, por exemplo, é algo por que as crianças se interessam muito. É mágico, transformador, alquímico e se aprende muito sobre disciplina, ordem e planejamento na cozinha da casa", explica Álvaro.

A curiosidade inerente às crianças é o principal motor da Desescolarização. Entretanto, o motor só é funcional se, aliada à curiosidade, houver a figura do facilitador e as ferramentas adequadas disponíveis. "As crianças geralmente são muito curiosas e, como sabemos, possuem um cérebro muito plástico, que é capaz de estabelecer muito mais conexões que um cérebro adulto. Isso significa que é possível que desde muito cedo as crianças estejam aptas a aprendizagem. Porém nada disso funciona sem a relação dessa criança com o Outro, onde se estabelecem as relações afetivas", pontua Juliana Radaelli, psicóloga e doutora em Educação pela USP. Ela explica ainda que é o cuidado dos pais o responsável por possibilitar que o desejo de aprender emerja na criança. "É impossível o desejo surgir da solidão", completa.

Lugar de criança é na escola?

Se a Desescolarização traz às crianças e jovens mais autonomia, responsabilidade por suas tomadas de decisão, estímulo à criatividade e empatia, o pacote completo da prática do ensino em casa nem sempre é visto com bons olhos. "O mais complicado é sentir a força de questionamento que vem dos desconfortos das pessoas em volta, que se mantém no sistema padrão. Parece que eles se sentem traídos e, inconscientemente, direcionam uma onda de reprovação. A Desescolarização é, na verdade, um processo vivido pela família. Todos passam por uma desprogramação e é um trabalho interno diário", afirma o terapeuta.

A família de Álvaro é apenas uma entre as mais de 2.500 famílias brasileiras que optaram por tirar seus filhos da escola, segundo a Associação Nacional de Ensino Domiciliar (ANED). Esse número é difícil de ser precisado, especialmente pela questão jurídica que envolve o tema. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, toda criança e jovem, dos 4 aos 17 anos, deve estar matriculado na escola. Aos pais que não cumprem a regra, podem ser aplicadas sanções do Conselho Tutelar e investigações por parte do Ministério Público. Com isso, muitas famílias praticantes do ensino em casa têm receio de se expor, preferindo o anonimato ao risco de serem denunciadas.

Segundo Luciane Muniz, doutora em Educação pela Unicamp e autora de tese acerca da educação domicilar, "não há consenso sobre a inconstitucionalidade da educação domiciliar no Brasil; por esse motivo, vemos diferentes decisões judiciais permitindo ou não famílias brasileiras praticarem essa modalidade de educação." Desde 1994, houve sete tentativas de tornar legal o ensino domiciliar no Brasil. A questão é bastante complexa pois lida com os limites entre a liberdade pessoal e a vida em sociedade, permeando diversos aspectos legais e sociais. Embora nenhum dos projetos de Lei tenha obtido êxito, o tema tem estado com frequência na pauta do Poder Legislativo, suscitando importantes questionamentos e reflexões.

Em fevereiro deste ano, o diretor de Currículos e Educação Integral do Ministério da Educação (MEC), Raph Gomes Alves, afirmou durante o Seminário Internacional de Educação Domiciliar que há no MEC uma mobilização para que a regulamentação do ensino fora da escola seja definida. “Deve haver uma definição clara das instituições de ensino das estratégias e regras definidas para que a autorização não incorra em riscos, tais como aumento das desigualdades educacionais, aumento do trabalho infantil e falta de convivência com outros pares. Essa sugestão será encaminhada para discussão no CNE e enviada para conhecimento do STF”, afirmou ao jornal Gazeta do Povo.

Entretanto, semanas depois, em reunião com entidades ligadas a instituições de ensino, o Presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Eduardo Deschamps, frisou que a obrigatoriedade escolar continua. O principal ponto contra do CNE em relação à autorização do homeschooling está na dificuldade de fiscalizar a qualidade do ensino domiciliar. “Existem três aspectos básicos que são paradigmas na história da educação: a obrigatoriedade da matrícula, a frequência na escola e a exigência de nível superior para os docentes. Como a educação domiciliar vai lidar com isso?”, questionou a conselheira Suely Melo também à Gazeta do Povo.

Assista abaixo nosso mini documentário exclusivo, contando o caso real de uma família em São Paulo

Déborah Gerber, pedagoga e fotógrafa, recentemente precisou encarar o Conselho Tutelar e explicar o porquê seu filho (também) Cauê, de 8 anos, não está devidamente matriculado no terceiro ano do Ensino Fundamental. "Recebi o Conselho Tutelar. Fui denunciada", contou ela. Apesar de ter sido bastante direta e ter apresentado um relatório rico e completo com as razões de sua decisão, condições de vida e detalhes do dia-a- dia com o menino, agora cabe ao Ministério Público seguir com a questão.

Após deixarem a capital São Paulo, mãe e filho se mudaram para Ubatuba, no litoral paulista, onde optaram por dar início Desescolarização. "Assumi isso insegura por conta da Lei, que não permite, e por ganhar um ritmo novo; ver eu assumir mais essa responsabilidade com ele. Mas eu já conhecia o Movimento, já conhecia bastante gente do Movimento, que já está nessa vida há bastante tempo. Fui conversando com outras pessoas e fiquei segura para tomar essa decisão", conta ela, que demorou mais de dois anos pesquisando sobre o tema e entendendo se esse era, de fato, o melhor caminho para o filho e também para ela. "Em dois anos consegui comprovar isso, que ele vivia essa pressão [na escola] e isso estava travando ele", explica Déborah, que pretende seguir com a Desescolarização do filho e defender sua posição na Justiça, caso necessário.

Desde outubro de 2016, Déborah e o Cauê deixaram de lado a rotina escolar para buscar o aprendizado nos eventos do dia-a- dia. Graduada em Pedagogia e em Artes Plásticas e fã de Paulo Freire, Piaget e metodologias alternativas como a Waldorf, Déborah sempre esteve em busca de um ensino personalizado para Cauê, a fim de que o garoto pudesse se desenvolver longe da rigidez da escola padrão. Ainda em São Paulo, Cauê chegou a estudar em uma escola alternativa, mas o método ainda não era livre o suficiente, segundo Déborah. Em Ubatuba, até mesmo por morarem longe da cidade, o processo de Desescolarização foi uma escolha natural de ambos. Ela conta que a vida ficou mais orgânica, com horários mais tranquilos e com a possibilidade de explorar e desenvolver as curiosidades e interesses do menino.

Ainda atenta às Diretrizes de Ensino padrão, Déborah afirma que ainda está ajustando a forma como facilita o aprendizado do filho. "Tenho a grade curricular como norteador, mas estou disposta a ficar bem flexível a ela. No início tentei fazer algo mais formal mesmo, com horários. E aí fui me adaptando a algo mais orgânico", explica ela, que encaixa a atenção ao filho com suas atividades como professora de Fotografia e com as atividades domésticas. No dia-a- dia, até os assuntos mais banais despertam a curiosidade do pequeno e Déborah acaba aprendendo junto, nessa experiência que tem sido de duas vias. "A gente vai para o banco e tem a senha do banco, a fila. Quanto assunto se tira dali! O que é mais interessante a gente foca mais, estuda em casa, vai buscar outras coisas. Estou tendo essa percepção de entender a riqueza que é o mundo. O nosso cotidiano traz muitos temas. Eu mesma estou estudando mais", afirma.

"Cada um é pessoalmente responsável por sua própria desescolarização; unicamente nós temos o poder de fazê-lo." Ivan Illich - Sociedade sem Escolas

A Matemática é o principal assunto nas idas ao supermercado. A quantidade de dinheiro, preços e produtos são base para o aprendizado. Déborah entende que, com o tempo, o conteúdo vai ficando mais complexo, mas afirma que, por ora, as curiosidades do filho são mais que suficientes para cobrir o conteúdo indicado nas diretrizes de base. "Não sei mais pra frente. Vou me adaptar a novas fases. Na adolescência será um desafio maior", reconhece. Déborah conta ainda que deixou bastante claro para o filho que, caso ele queira voltar para a escola, isso é possível. "A gente tem que ver se isso mesmo. Daqui a pouco será adolescente, vai ser outra fase. Não é algo fechado, é necessário se adaptar. Exige um olhar e sensibilidade mais apurados para tentar entender se estamos no caminho certo", afirma.

Cauê está satisfeito com o novo ritmo de vida. O garoto mantém as amizades da escola, pratica exercícios físicos, rotinas de leitura e escrita e anda cultivando um peculiar interesse por imãs e suas aplicações. Fora da escola, sente-se menos pressionado e deixou de pensar que não era capaz ou inteligente o suficiente, sentimento que era constante na rotina escolar. O emocional da criança e do jovem é um dos principais pontos levados em conta pela família quando se opta pela Desescolarização.

Menino
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Ser feliz também
importa!

7,4%
dos alunos

afirmaram que na maior parte do tempo ou sempre se sentiram humilhados por provocações, nos últimos 30 dias anteriores à pesquisa;

19,8%
dos estudantes

disseram ter esculachado, zombado, mangado, intimidado ou caçoado algum de seus colegas de escola nos 30 dias anteriores à pesquisa;

Os principais motivos das provocações dos colegas foram:

aparência
do rosto

10,9%

aparência
do corpo

15,6%

Entre 2003 e 2012, o aumento no uso da Ritalina, medicamento para TDAH, foi de 775%

O estresse escolar e o desenvolvimento emocional

Atualmente, o bullying ocupa um lugar cativo na pauta sobre como o ambiente escolar pode afetar o emocional dos jovens e crianças. Não à toa: uma pesquisa do IBGE publicada em 2015 estima que 7,2% dos jovens entre 13 e 15 anos sofrem esse tipo de ataque, que não raro leva a quadros de depressão, automutilação e até mesmo suicídio. Mas esse não é o único ponto de atenção no que concerne o bem-estar dos pequenos e dos adolescentes dentro da escola.

Cada vez mais cedo as crianças são levadas a creches e a jardins de infância, ambientes em que, junto a dezenas de outras crianças, são supervisionadas pela figura do professor e guiados em uma rotina pré-estabelecida. Ainda em seus primeiros anos de vida e longe dos pais, figura primária de relacionamento, a criança sente-se abandonada e, sem conseguir regular suas emoções e necessidades de forma autônoma, extravasa seus sentimentos no choro e na birra.

Estima-se que 7,2% dos jovens entre 13 e 15 anos sofram com agressões físicas ou verbais de colegas

Segundo estudo da Universidade de Georgetown, realizado com crianças de 3 a 4 anos e meio, os pequenos demonstram um elevado nível de cortisol quando enviados às creches, o que indica o estresse pela qual passam nas instituições. "Infelizmente, por mais bem-intencionada a educadora ou o professor estejam, é-lhes humanamente impossível satisfazer as necessidades e carências emocionais de 10 ou 20 crianças, para além de isso não constar no currículo do Ministério da Educação", pontua Agnes Sedlmayr, ativista pelos direitos das crianças e crítica do modelo educacional atual.

Conforme os anos se passam, o ambiente escolar continua a afetar o psicológico dos pequenos, com os percalços da socialização, exigências de aprendizado e regras rígidas. Nos últimos anos, o mau comportamento na sala de aula ganhou uma solução que, equivocadamente, é tida como fácil: a adoção de medicamentos como a Ritalina, nome comercial do metilfenidato, usado no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, ou TDAH.

De acordo com informações obtidas pelo Estadão na Anvisa, em 2013, o uso do medicamento havia aumentado 775% em 10 anos e até hoje tem como principal usuário o grupo das crianças e jovens. O medicamento vem da família das anfetaminas e eleva a concentração de dopamina no funcionamento cerebral. Dessa forma, a criança fica mais calma – na visão de especialistas, apática. As crianças que são alvo dessa "solução mágica" costumam ser as que corrompem a ordem na sala de aula: as questionadoras, as curiosas e as que não se submetem facilmente às regras. Ora, em outro contexto, como o de empresas disruptoras, não é exatamente esse o perfil de gente que muda o mundo?

No ápice da adolescência, o jovem das classes média e alta enfrenta outro desafio emocional na escola: o pesadelo chamado vestibular. Para seguir nos trilhos da Educação sem perder o horário, os estudantes chegam a ficar doze horas por dia debruçados sobre as apostilas, preocupados em decorar fórmulas, nomes técnicos e macetes. A tensão pré-vestibular está diretamente ligada à ânsia de alcançar expectativas – dos pais, dos professores e dos colegas. Nessa jornada, sintomas como insônia, agressividade e cansaço são frequentes. E quando o sucesso não vem na primeira tentativa? Vergonha, sensação de derrota e raiva tomam conta dos estudantes. Afinal, ficar parado na mesma estação por mais seis meses ou um ano significa um atraso o qual nem sempre conseguem gerenciar emocionalmente. O destino possível é um só: a Universidade – e pública, de preferência!

Estima-se que 7,2% dos jovens entre 13 e 15 anos sofram com agressões físicas ou verbais de colegas

No Brasil
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Autonomia e
Socialização

"Com três anos, o Timo tinha um interesse louco por tratores. Vivemos numa aldeia com muitos agricultores e, em breve, ele conhecia todos os tratores da vizinhança e era amigo de todos os tratoristas que o deixavam sentar-se ao volante e mexer nos botões.

Descobriu que os tratores tinham nomes (as marcas), e rapidamente sabia as marcas todas, reconhecendo um determinado trator pelo som do motor, mesmo sem o ver! Um dia numa loja encontrou um livro sobre tratores, com fotografias e descrição da marca, do modelo, da potência, etc.

Era um livro para adultos, mas ele insistiu que precisava dele. Comprei-o. Tornou-se o livro preferido, aquele que o Timo observava diariamente. Pedia para lhe lermos os nomes dos tratores e todas as informações que mesmo para nós adultos, não nos diziam nada.

Timo não precisa de estar sentado 7 horas por dia num espaço dedicado exclusivamente à 'aprendizagem', num convívio forçado com outras 25 crianças que não têm nada em comum a não ser a idade. Não precisa de se submeter à humilhação de pedir para ir à casa de banho, de ter de esperar para comer mesmo que tenha fome ou, pior, de ser avaliado, corrigido e analisado a cada passo.

"Vive intensamente, seguindo os seus interesses a seu próprio ritmo, em alegria e união com quem ama e em quem confia."

Trecho do livro "Livre para Crescer", de Agnes Sedlmayr, em que a autora relata sua experiência de Desescolarização com os filhos.

Manda quem pode,
obedece quem tem juízo

Aprender com o mundo é relacionar-se com ele e com as pessoas de forma diferente. O processo da Desescolarização exige dos pais estrutura e comprometimento, o que resulta em uma vida familiar distinta da padrão. Para Agnes Sedlmayr, no quotidiano familiar comum, o controle e manipulação do comportamento da criança, ainda que de maneira inconsciente e informal, representa uma parte central da interação entre pais e filhos. "A criança apenas tem duas possibilidades: reagir com resignação às exigências, abdicando da sua própria espontaneidade e tentando agir para agradar aos pais, ou reagir com oposição, fazendo 'birras' e todo o tipo de comportamentos que não são desejados pelos educadores", afirma em sua obra Livre para Crescer.

Carla Ferro, filósofa brasileira que estuda a Desescolarização, é crítica dessa estrutura de relação coercitiva. "É justamente esse tipo de relação de dominação e obediência que em muitos casos se pretende interromper, deixar de reproduzir. Os pais só podem afrouxar suas expectativas em relação aos filhos se cuidarem de suas expectativas em relação a si mesmos", afirma. Ao aceitar exigências manipulativas, a criança é vista como boa, tranquila e dócil pelos pais e educadores. Entretanto, paga-se o preço de se sentir inferior ao adulto, incapaz de ser independente da figura de autoridade e de tomar suas próprias decisões.

Na opinião de John Holt, considerado por muitos o "pai" da Desescolarização, a regra para a interação adulto-criança é simples: "Tome cuidado ao dizer ou fazer para uma criança qualquer coisa que você não repetiria com um adulto pelo qual você se importa".

Há socialização fora
da escola?

As bases da empatia e da cidadania se dão na relação com o Outro. Para as crianças, essa experiência ocorre principalmente no ambiente da escola, onde mantém contato com outras crianças e com a figura do professor. A questão da socialização frequentemente é uma das principais críticas à Desescolarização. Fora do ambiente escolar, as crianças teriam o desenvolvimento da aptidão social e de valores morais prejudicados. Entretanto, essa questão é vista a partir de outra perspectiva pelos defensores da Desescolarização. "A escola é sem dúvida um dos lugares onde se aprende a socialização compatível com nosso modo de organização social e as bases de uma cidadania muito questionável. Pessoas separadas por funções, faixas etárias, níveis de conhecimento; os próprios conhecimentos separados por disciplinas; os espaços por paredes, portões e cadeados; o tempo separado por grades horárias, sirenes...", pondera a filósofa Carla Ferro.

Cabe então uma reflexão sobre o que socializar-se realmente significa. Ao forçar o convívio de crianças da mesma faixa etária e social, em uma situação artificial, tem-se uma experiência de socialização parcial. Crianças e jovens desescolarizados têm como sala de aula o mundo, tendo a chance de conviver com pessoas das mais diferentes idades e origens, o que proporciona experiências de convívio social ainda mais ricas.

Robo
Próximo Capítulo

Desescolarizar
para ir além

"Ao mesmo tempo em que o uso das tecnologias pode abrir espaço para outros modos de adquirir e produzir conhecimento e relações de aprendizagem, esses recursos podem servir para ampliar e modificar os meios de escolarização da sociedade. A escola existe à imagem da sociedade de que faz parte e que se esforça por manter funcionando. Dessa perspectiva, vemos diversas modificações periféricas que tomamos equivocadamente por modificações estruturais.

A escolarização ultrapassa os muros da escola e está presente nas relações familiares e sociais, e o fato de as tecnologias estarem à disposição, hoje, também com essa finalidade de melhor instruir seus usuários, acompanha as mudanças das relações de trabalho para as quais se pretende preparar as crianças.

Eu diria que não é à toa que coincidam na mesma época o homeoffice e um crescimento da aceitação do homeschooling, assim como a escola disciplinar nasceu e cresceu de mãos dadas com a indústria"

Carla Ferro, filósofa estudiosa da Desescolarização

Sarah Stein Greenberg

Criatividade e inovação fora do padrão

Harper Lee, renomada escritora norte-americana, Bill Gates, Steve Jobs e Michael Dell, empreendedores que revolucionaram a indústria da tecnologia, o músico John Mayer, a comediante Ellen DeGeneres, Walt Disney e Elon Musk, o gênio multi milionário que está fazendo sua parte para revolucionar nossas vidas com tecnologia: todas essas pessoas decidiram abandonar a educação formal para seguir com seus próprios interesses.

O processo escolar separa o mundo em caixinhas. Da Matemática às Artes, cada um tem seu quadrado. A verdade, entretanto, é que a vida é interdisciplinar, no melhor estilo tudo junto e misturado. Percebê-la em sua completude exige um esforço grande de quem é acostumado com a organização do conhecimento em grades.

Pessoas como Elon Musk vão na contra-mão disso e, a partir de seus interesses traçam suas próprias jornadas de aprendizado, transformando-se em generalistas-expert, termo cunhado por Orit Gadiesh, da empresa de consultoria Bain & Company. Os generalistas-expert são pessoas que estudam as mais diversas áreas e se debruçam nos conceitos-chave de cada assunto. Com isso, reconstroem princípios e conceitos em ferramentas, que podem ser usados em diferentes contextos. Como brinca o comediante brasileiro Murilo Gun, em uma apresentação do TEDx Fortaleza em que abordou o tema Educação, o que faz a diferença é o que você carrega em seu cinto de utilidades do Batman e não o que se decora na sala de aula.

Musk carrega consigo um cinto de utilidades pra lá de poderoso. Ao reagrupar princípios da inteligência artificial, Física, tecnologia e Engenharia e aplicá-los a diferentes campos, o visionário empreendedor é ninguém menos que o responsável pelos carros autônomos da Tesla, pelo projeto aeroespacial da Space X e pelo Paypal, uma das mais revolucionárias e lucrativas empresas de tecnologia já criadas, em que foi cofundador. "É importante enxergar o Conhecimento como uma árvore semântica – certifique-se de que você entende os princípios fundamentais, como o tronco e os galhos maiores, antes de você partir para as folhas e detalhes, caso contrário elas não terão onde se apoiar", explicou Musk ao ser questionado sobre seu processo de aprendizagem em um AMA (Ask Me Anything) do Reddit, sessão em que pessoas famosas ou renomadas respondem a perguntas de internautas.

A aprendizagem autodidata e guiada por interesses, longe do ambiente acadêmico, tem sido um caminho cada vez menos raro por parte dos jovens. Desacreditados com a Universidade, que há algum tempo deixou de ser o caminho certeiro para o mercado de trabalho, e respaldados pelo rico acervo de aulas e conteúdo disponibilizados online, eles tomam as rédeas da própria educação e arriscam em seus próprios negócios.

Sarah Stein Greenberg

O auto-conhecimento e experiência de vida já conta mais do que diplomas para muita gente. É o caso do UnCollege, movimento concebido pelo norte-americano Dale Stephens, que estimula jovens a desenvolverem-se de maneira livre e independente. No Brasil, a iniciativa é liderada por Lucas Coelho, e promove atividades como o Gap a Year, proposta que convida o jovem a parar seu trem em uma estação pelo período de um ano. Durante o período, o adolescente passa por quatro etapas, em que participa de workshops dos mais variados temas, conversa com mentores, passa três meses morando em um novo país, faz um estágio e, por fim, trabalha em um projeto autoral – seja uma startup ou uma exposição fotográfica.

Universidade desescolarizada?

Apesar das críticas à Educação formal, a Universidade, sem dúvidas, ainda tem o seu valor. Não à toa, muitas crianças que passam pelo processo de Desescolarização buscam ingressar em um curso superior quando chegam aos 17 ou 18 anos. No Brasil, o ENEM não exige a comprovação da escolarização formal em sua inscrição. Com isso, jovens que deixaram de frequentar a escola podem realizar a prova e ingressar na universidade caso desejem.

Nos Estados Unidos, uma pesquisa realizada pelos psicólogos Peter Gray e Gina Riley constatou que 83% das crianças que passaram pelo processo da Desescolarização optaram por entrar na Universidade. Segundo a pesquisa, a dificuldade desses jovens, de forma geral, concentrou-se nas etapas burocráticas de matrícula, e não na adaptação em sala de aula. "Entrar na Universidade foi um processo bastante tranquilo para esse grupo; eles se ajustaram à vida acadêmica com facilidade, aprendendo rapidamente habilidades como fazer anotações das aulas e redações; e sua capacidade de auto-motivação e independência foi uma vantagem bastante distinta", afirmaram os pesquisadores.

Não é novidade para ninguém que a Educação no Brasil está longe de ser a ideal. Mas será que se tivéssemos por aqui um sistema educacional nos moldes nórdicos, a Desescolarização ainda estaria em pauta? Para a filósofa Carla Ferro, o Movimento não vem para resolver os problemas da Educação, mas para repensar todo o modelo de sociedade. "A Desescolarização é em muitos casos uma ruptura não necessariamente com o que é considerado deficiente na Educação, mas com seus próprios processos e objetivos no sentido de atender a este modelo de sociedade em que vivemos, reproduzindo-o", afirma. Para Carla, trata-se da recusa de um modo de vida que busca o diploma, para dar vez ao processo do aprendizado. Afinal, ao pararmos para pensar, dizer que  alguém "terminou os estudos" é algo no mínimo equivocado, por mais corriqueira que seja a expressão.

Como afirma Ana Thomaz, uma das defensoras da Desescolarização mais conhecidas da atualidade, a Desescolarização é um exercício constante de tirar a escola de dentro de si. Mais do que a maneira com que se aprende, trata-se de uma reavaliação da postura frente a si mesmo e frente ao mundo.

John Holt, How Children Learn (1984), p155

Créditos

  • Reportagem: Bruna Rasmussen
  • Edição: Clara Caldeira
  • Produção executiva: Rafael Rosa
  • Iniciativa: Hypeness e Webedia
  • Arte: Webedia Studio
  • Vídeo: La Madre
  • Desenvolvimento: Cynthia Costa e Lucas Martins